domingo, 21 de setembro de 2008

A "Pietà", de Clara Ferreira Alves

Este texto de Clara Ferreira Alves fala da dor causada pela perda de um filho, uma dor que nem a autora, nem a mãe referida no texto, entende muito bem.
Clara Ferreira Alves diz-nos que, com o passar do tempo, com a idade e com a experiência vivida o suposto era tornarmo-nos mais fortes, mas isso não acontece, sendo que nem mesmo o tempo ajuda a apagar rancores, mágoas, más recordações.
A Lei da vida é irem primeiro os que primeiro vieram, mas isso é uma coisa que também não podemos controlar. É assim que a autora nos conta como, “na intimidade dos estranhos”, falou com uma mãe que tinha perdido o filho, que fora para a escola e nunca mais regressou.
Considera a autora que as vidas, da mãe e do filho “perdido”, se tinham paralisado. A mãe ficara perdida, sentindo que tinha perdido tudo. Muito mais do que se tivesse perdido uma parte do corpo, uma parte dos cinco sentidos, uma parte do coração, uma parte da alma, tudo. Um filho que “parte” e que deixa para trás esperanças, sonhos, possibilidades, um futuro.
A autora não sabe bem como escutar esta dor, porque só quem passa por ela é que o sabe explicar, nada nos preparando para este género de sofrimento.
Mais adiante, Clara Ferreira Alves, refere também a história de um outro menino que morrera atropelado. Com a festa do seu aniversário marcada, a mãe deste menino desistira de ir buscar o bolo previamente encomendado.
Nada poderá aliviar a dor sentida por uma mãe que, de repente, deixou de o ser. A dor de não poder voltar a tocar, a sentir, a ouvir o seu filho nem o tempo ajudará a esquecer.
‘’O que acontece ao tempo quando o relógio pára de vez?’’
Explico esta frase com outra pergunta: “se o relógio controla o tempo, podemos parar o tempo e controlá-lo?”

Para mim este é um texto muito atraente, infelizmente pelas piores razões. Conjuga o tema da perda de um ente querido com o vazio que as mães sentem ao perderem os filhos, o que para mim constitui um facto injusto. Os sentimentos dessas mães são intensos, muito presentes no seu quotidiano, entram num processo de degradação na sequência da morte dos filhos, revelando marcas que, dificilmente, o tempo conseguirá apagar.
Ponho-me no papel de mãe e nem imagino como ficaria… Desolada, triste, desamparada, inconsolável, abandonada, vazia. Algo de mim me teria sido tirado. Quando se perde um filho, perde-se a nossa perspectiva de futuro, pois é nos filhos que garantimos a possibilidade de realizar todos os sonhos e projectos que não conseguimos nas nossas próprias vidas. Um filho não é apenas uma extensão biológica dos seus pais, mas também psicológica. Por isso, temos a sensação que perdemos um pedaço de nós.
Concordo com a opinião da autora, do principio ao fim do texto, com a excepção apenas de uma frase, quando ela afirma que: ‘’O que se diz a uma mãe que, de repente, deixou de poder ser mãe, de poder amar, ver tocar, sentir, ouvir o seu filho?’’ De poder amar uma mãe não deixa. Por mais distante que o filho esteja, uma mãe ama sempre o filho incondicionalmente, perto ou longe, ama sempre.

Podemos considerar que este texto possui as características de uma crónica, visto que a crónica é um género literário, com uma finalidade utilitária e pré-determinada em agradar e ‘’prender’’ os leitores. É uma narrativa baseada em algo do quotidiano e possui uma crítica e uma opinião da parte da autora.
Uma escrita desempoeirada, irónica e apaixonada, um estilo muito próprio que foi criando, ao longo dos anos, uma maior exposição que lhe veio dar mais notoriedade, fazem de Clara Ferreira Alves uma das cronistas mais lidas em Portugal.
Madalena Martins, em 22 de Setembro de 2008

1 comentário:

disse...

Madalena, e se deste acontecimento tu puderes exprimentar a paz? E se não te arrastar para o tal turbilhão de desgraça que relatas? E se não vires um fim ,mas sim um principio de algo?
Muitas questões te levanto eu, que sou pai e que acredito que a vida dos meus filhos não está nas minhas mãos, nem nas minhas riquezas, ou nas minhas capacidades. Nada posso fazer!
Apenas tenho a presunção de querer que a vida tenha a tal lógica que tu falavas, nada mais.
Já testemunhei o que descreveste, mas mais impressionante, foi ter testemunhado o contrário. Ver filhos a "partirem", e pais em paz!
Chamo-lhe FÉ!
Apenas ficou nesses corações que tenha a graça de conhecer, uma palavra muito nossa, SAUDADE.